David Guerra – Arquitetura e Interiores

Só mais um site WordPress

David Guerra

Comer, beber, viver

Este não é somente o título do filme de Ang Lee, onde o pai cozinheiro discute os conflitos de sua família em jantares. Não é também referência à magia das sensações promovidas pela comida nos filmes “Como água para chocolate” e “A festa de Babette”. Este é o estilo de vida das maiorias das pessoas que compartilham a idéia de que a cozinha é o lugar mais importante da casa,um lugar que centraliza todos os demais ambientes, desde as salas de estar,jantar e cinema , como as varandas , terraços , decks e piscina, um lugar de convergência e registro de afetos, estórias e histórias, alegrias e solidariedade,um lugar de consolidar a convivência da família e dos amigos. A cozinha é o coração e a alma dessa casa de cheiros e sabores.

A relação do homem com a comida é bem mais antiga e definitivamente não se restringe à necessidade da sobrevivência, de simplesmente abastecer-se. Além da fome do corpo, comer está ligado à vontade de ter boa companhia e de compartilhar, está ligado à estética, a todos os sentidos, ao prazer, a significados festivos e religiosos. Em todas as religiões, o alimento é sagrado. Na Santa Ceia, Jesus reparte entre os apóstolos o pão e o vinho, símbolos do seu corpo e sangue, uma forma do homem se religar a ele e ao todo.

Todas as culturas do mundo nasceram, de uma forma ou de outra, da organização coletiva pela procura do alimento. Os mesopotâmicos acreditavam que os deuses debatiam suas decisões à mesa. Entre os mortais, uma das maiores funções da refeição coletiva é consolidar o grupo, reforçar laços sociais e de família. Desde as civilizações mais antigas, a celebração farta é sinal de vitória e alimenta a esperança de dias melhores. Na Índia, durante as festas de outono, as portas das casas ficam abertas, nelas mesas repletas de alimento para serem divididos com os que chegam.

A era industrial, sua forma de organizar o trabalho, a vinda do homem do campo para as cidades, afastou-nos da satisfação do alimentar-se: cultivar, preparar e degustar os alimentos. Mas agora, muitos começam a fazer o caminho de volta. Na Itália, surgiu, em 1986, o movimento do Slow Food, contrário à comida rápida, em defesa da diversidade culinária representada por diferentes culturas e de um ritmo de vida mais humano.

Uma pesquisa realizada pela Agência de Marketing, Clínica de Comunicação e Marketing e Associação Brasileira dos Anunciantes (ABA), em 2003, revelou que “jovens deixam de considerar carreiras financeiramente promissoras para sonhar com vidas mais modestas, longe do stress e da agressividade dos grandes centros urbanos”. Essa pesquisa também diz que os entrevistados ressaltaram a importância da convivência com a família, o fato de comer e ficar mais em casa, encontrar mais os amigos e aproveitar mais a vida.

Afinal, não nos alimentamos somente do que comemos, mas também de saborear os afetos e as relações com as pessoas que fazem parte do nosso convívio. E como a arquitetura participa disso? A arquitetura observa, entre outras coisas, o comportamento humano, o que os homens buscam e querem do espaço e da estética. O belo está ligado ao bom gosto. Isso envolve todos os sentidos: olfato, tato, audição e visão. A estética do gosto evoluiu com a história, diante disso a cozinha surge convidativa, envolvida em espaços abertos,com materiais sofisticados, ecológicos, rústicos e acolhedores,novos materiais,novos utensílios, novos equipamentos,novos tempos, tempo de conversa e de sabor.

“Na linguagem que movimenta a vida cotidiana, tão cheia de pressas e hábitos, a prosa predomina, mas, de vez em quando, abre-se o espaço para a poesia. Isso acontece todas as vezes que a despeito do cansaço e das obrigações achamos um jeito de valorizar um encontro ou uma ação. Nos banquetes, a festa é da poesia, das cores, dos cheiros e dos sabores. É a hora do brinde e da reflexão. A comida tem o olhar nos olhos, o riso e a oferta de quem elabora o jantar. Tudo isso é o que une as pessoas desde os tempos de Baco e Dionísio à volta da mesa.”

“Eu diria que a cozinha é o útero da casa, lugar onde a vida cresce e o prazer acontece, quente… Tudo provoca o corpo e sentidos adormecidos acordam. Cozinha, ali se aprende a vida. É como uma escola em que o corpo, obrigado a comer para sobreviver, acaba por descobrir que o prazer vem de contrabando. A pura utilidade alimentar, coisa boa para a saúde, pela magia da culinária se torna arte, brinquedo, fruição e alegria.”

Trechos de Rubem Alves